domingo, 19 de julho de 2026

Quer a minha verdadeira razão de amar o tal do "JDM"?

Em termos de projeto, os japoneses produzem veículos para atender as necessidades das 120.000.000 de pessoas e só depois de muita ponderação consideram exportar eles para o resto do mundo, de acordo com o cenário global e até local da economia que eles buscam entender. Se considerarmos somente os recursos minerais, o Japão é um dos países considerados como desenvolvidos pelo IDH, mas que na lista de produtores de petróleo fica no no 81º lugar, na produção de ferro é o 8º lugar, de zinco é o 7º lugar, de latão é o 17º, de prata é o 57º, de cobre é o 6º. Como um arquipélago esticado, nascido na zona tectônica do anel de fogo do oceano pacífico, na beirada continental do leste da Ásia, consegue fazer carros tão bons?

É justamente esse ambiente que exige eficiência na produção e consumo de produtos. Logística e manejo de recursos também. Mas o ambiente não diz isso para as pessoas, não de forma clara e objetiva. Foram os próprios japoneses que perceberam isso ao longo do tempo. Se bobear, algumas passagens da filosofia confuciana devem ter chegado na mesma conclusão que eu cheguei sozinho.

Os carros japoneses costumam ser mais leves do que os europeus e americanos. Os motores japoneses costumam ter mais aproveitamento de potência específica e baixo consumo do que os americanos e europeus. As tecnologias empregadas costumam ser aprimoradas em prol da simplicidade. A ergonomia parece ser bem mais pensada. E na questão de manutenção e consumo os carros japoneses, em média, dão um baile geral. Lembrando que aqui eu digo numa escala global. É meio raro encontrar algum projeto de automóvel americano ou europeu que preencha todos esses parâmetros. Posso ser um "fanboy JDM", mas já me atrevi a tentar encontrar carros mais eficientes nos cardápios europeu e americano.

Encontrei e posso ditar todos os parâmetros técnicos. Mas, na cabeça do bobo-alegre ocidental, prefiro deixar essa lista de carros só pra mim mesmo.

Só à partir de 1980 é que os japoneses passaram a ter mais participação no mercado, muito em detrimento da lerdeza dos europeus e americanos adotarem tecnologias e empregá-las de forma eficiente, como consequência de duas marcantes crises do petróleo. Por mais que eu elogie Firebird e Camaro, eles não tem a suspensão traseira independente e motores DOHC de Fairlady e Supra. Por mais que eu elogie o Dodge Neon, o Honda Civic mais básico parece ter melhor aproveitamento pra ser tunado e correr na pista. E ainda que um Smart For Two na versão aberta Blade seja super gostoso de dirigir, eu quero tunar e usar no meu dia-a-dia coisas como Autozam, Beat, Cappuccino e Kopen. Especialmente se for aqui no Brasil, uma ilha tão continental e relativamente isolada como o Japão é para o leste da Ásia.


E antes que venham citar modelos de carros brasileiros, quero lhes informar duas coisas:

1) Os americanos sempre foram preguiçosos e só tiveram Chevrolet, Dodge e Ford vendendo algumas barcas por aqui, porque um carro grande é geralmente visto como símbolo de status entre as pessoas na sociedade. Dart, Opala e Maverick eram muito mais confortáveis e beberrões do que símbolos de performance e qualidade. Talvez os únicos três carros que realmente venceram no nosso mercado com diversas qualidade superiores às três grandes de Detroit foram Volkswagen Passat, Alfa Romeo 2300 e Puma GTB. Um sedan básico, um sedan de luxo e um esportivo GT puro.

2) Os europeus, em contrapartida, entenderam que precisariam manter um projeto de carro barato e econômico por mais tempo para dar lucro e contaram com uma ardilosa manha: o brasileiro nunca se acostumou a questionar a qualidade dos carros que compra. Por acaso carros como Ford Del Rey e Fiat Uno dariam certo no Japão? Óbvio que não! Será que os alemães gostavam tanto assim do Gol brasileiro ao ponto de mantê-lo somente no nosso mercado? Ou será que, na ponta do lápis, eles preferiram nunca ter tentado deslanchar Golf, Lupo, Polo, Jetta, Bora já sabendo que venderiam só meia dúzia e perderiam uma baita grana no processo? Óbvio que os europeus fazem as contas. Quem não faz é o brasileiro, que sempre aceitou o rótulo de "pobretão", sobretudo para a conveniência dos estrangeiros.

Esse é o verdadeiro fundo do poço.

O brasileiro não sabe escolher pneu, roda, disco, pinça, pastilha, fluído, mola, amortecedor, bucha, diferencial, cardã, caixa, embreagem, motor e carroceria. A maioria das oficinas trabalha apenas com reparos imediatos, sem criar um vínculo com o cliente para entender como o carro vai ser usado. As montadoras nadam de braçada ao oferecer bombinhas para os clientes incautos e nem vou entrar na noção de financiamentos e empréstimos.

No fundo, o brasileiro sabe que todo carro é meramente um produto industrial, com 4 rodas e uma única função de te levar pra lá e pra cá, carregando mais algumas pessoas e umas malas. O brasileiro só não quer admitir que eles valem porcaria alguma e que usar carro como "símbolo de status" é tiro no pé. Quando causei uma leve confusão no Reddit ao afirmar que o NSX é um mero esportivinho japonês baratinho, o pessoal caiu matando em cima. Eles também querem o carro por um preço super barato como eu já calculei, mas o problema vai continuar sendo a visão "símbolo de status" doutrinada neles.


Eles não entendem que eu não enxergo o NSX como a última palavra em esportividade. Pra falar a verdade, o NSX é basicamente um Civic coupe, com V6 de Accord montado na traseira, interior de Swinger 2000, painel e controles de Prelude e olhe lá! A Honda te dá a conveniência de fazer o carro mais confortável e durável do que um Porsche ou Viper. Apesar de ser na configuração MR, ele tem todas as medidas de um carro GT da época como Supra, Fairlady, Alcyone, GTO e Savanna. Mas, enquanto persistir a visão "símbolo de status" na cabeça deles, esses filhos da fruta ainda vão temer andar com o NSX num dia de chuva sequer. Mal eles sabem que um japonês heroicamente já usou um NSX pra fazer RALLY CROSS!

Tenho ódio e nojo de conversar sobre carro e tuning com brasileiros.

O Brasil é um país com uma excelente extensão territorial, um clima praticamente estável, recursos abundantes e um povo que é secretamente mais apaixonado por automobilismo do que por futebol. Uma coisa é natural, a outra foi induzida e instrumentada pelo governo. E ainda sim, tem panguás dos quais que eu adoraria esfregar meus punhos fechados na cara. É muito conveniente para o estrangeiro se aproveitar dessa situação e dizer que o brasileiro "já está contente com o que tem". O pior de tudo é ver o brasileiro aceitando ser um "incapaz voluntário" e ter orgulho de tal "viralatismo". Se estamos vivendo no mesmo planeta, porquê temos que nos esforçarmos para sermos criaturas diferentes? Mais animalescas e menos civilizadas do que o tal "primeiro mundo"?

Procure o Top 10 das músicas nos tais países de primeiro mundo. Conte quantas dessas músicas tem letras complexas, ou são orquestras sinfônicas. Eu fiz isso e me surpreendi com a falta de inteligência desses tais povos desenvolvidos. São animais que apenas usam terno.

Para os ocidentais, os asiáticos sempre foram os perigosos ratos amarelos. Até o momento em que eles começaram a produzir coisas bacanas só para eles mesmos, até o momento em que eles decidiram realmente voltar a economia deles para suprir o básico e estocar para eles mesmos e foda-se o resto do mundo. Se os japoneses provaram que só precisam se importar com eles mesmos, então é exatamente o que devemos fazer por aqui.

Nos desvencilharmos de todo e qualquer traço cultural mainstream de fora que tente ser replicado por aqui, e buscar o underground deles para que seja o nosso mainstream. "Driblar" na troca cultural, privilegiando a nossa eficiência. Parar de aceitarmos tudo que eles fazem ou escrevem. Tudo que eles tem é basicamente na forma nominal. Nós é que devíamos ensinar a eles como fazer bons esportivos eficientes. E então, barganhar nossa existência na geopolítica, tal como os japoneses bem fazem. Vivermos expectativas reais apenas do que nos afeta no nosso dia-a-dia.

O meu "ethos" é bem japonês. Isso explica o fato deu gostar dos carros japoneses e ter eles como padrões na minha cabeça. Isso explica o fato das minhas opiniões serem bem realistas e sinceras ao ponto de incomodar aqui no ocidente. Eu amo a minha ambivalência japonesa ao considerar as vidas e atitudes das outras pessoas. Mas, de uns tempos pra cá, comecei a achar que estava dando liberdade demais para panguás daqui de dentro copiarem merda de estrangeiro e achar que tudo vai ficar lindo. Não vai. É melhor eu tomar a cultura automotiva nas minhas mãos e mudar algumas coisas.

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